Manifestações contra a corrupção eclodiram Brasil a fora, numa
crescente onda de clamores por melhores condições de vida, por uma
sociedade mais justa, por um governo que cumpre a palavra “democracia”.
Centenas de milhares de pessoas representando milhões de brasileiros,
numa tentativa de mostrar que os governantes precisam estar atentos aos
anseios do povo. Seria tudo muito interessante e realmente emocionante
se não fosse um fato: as mesmas pessoas que clamam por direitos, muitas
vezes, deixam de cumprir seus deveres.
Vivemos em um país onde a sonegação de impostos é assustadora. Talvez
até muito maior do que os números revelam. Exigir ética do governo é
nosso direito e também é um dever. Mas há de se convir que agir de forma
ética no cotidiano também é um dever do cidadão. Não adianta clamar por
mais dinheiro para educação e saúde pública, quando você, contribuinte,
não declara e não recolhe todos os seus impostos. Não vem ao caso aqui o
crescente aumento dos escândalos de corrupção e roubos nos cofres
públicos. Mas vem ao caso aqui exatamente o comportamento ético e a
moral do povo brasileiro.
Há muito que se pensar neste assunto. Se por um lado temos um Estado
que deixa de investir adequadamente parte de seus recursos sob pretextos
de organizar eventos esportivos ou outros eventos sociais ou qualquer
outra coisa que nos foge à razão, por outro lado temos uma economia
informal movimentando cerca de 18% do PIB, segundo o Instituto ETCO[1],
o que representa cerca de R$ 748,4 bilhões movimentados sem o devido
arrecadamento de impostos, sem os devidos direitos trabalhistas
assegurados. E temos que lembrar que uma boa parte dos recursos obtidos
no mercado informal acaba nas mãos de criminosos, traficantes de
mercadorias, contrabandistas e produtores de mercadorias falsas ou
vendedores de mercadorias de origem duvidosa, o que nos leva a pensar
que estes fatos contribuem para a diminuição dos empregos formais nas
indústrias devido ao consumo de produtos paralelos.
Exigir ética envolve agir com ética. É preciso avaliar até que ponto
nossas ações cotidianas são éticas. Como a nossa ética – ou a falta dela
– contribui para construir o país em que queremos morar? Será que
nossas ações contribuem para uma maior arrecadação de impostos que
poderiam ser utilizados nas áreas mais preocupantes como saúde pública e
educação? Ou será que nossas “pequenas sonegações” contribuem para um
esquema de contrabando e ações criminosas que nos fogem ao conhecimento?
É fato que o Brasil é um dos países com maior carga tributária do
mundo, porém é necessário avaliar que isto ocorre, em parte, porque
também temos um alto índice de sonegação de impostos. Se todos os
impostos fossem pagos adequadamente, o governo não precisaria aumentar a
incidência de tributação sobre determinados produtos ou atividades, uma
vez que ele teria de onde obter recursos necessários para executar seus
planos de políticas públicas. É uma balança muito fina e que precisa de
um equilíbrio muito justo. Quando você paga seus impostos, você tem
direito de exigir mais do governo!
Será que a corrupção dentro do governo não é uma forma de o governo
responder aos nossos atos civis delimitados por nossa falta de ética?
Não é o caso de fazer apologia a corrupção, longe disso. Mas o fato é
que o ser humano muitas vezes age de acordo com aquilo que ele recebe.
Então a corrupção no governo é só uma forma maior, mais visível e mais
ampla de não ser ético. As formas menores e menos visíveis acontecem
todos os dias, a cada segundo, sem que possamos notar. E muitas vezes
estes pequenos delitos são cometidos por nós mesmos, cidadãos de bem.
Vale lembrar que a ética não deve ser praticada apenas pelo governo
ou pelo cidadão comum, mas também deve ser praticada corporativamente,
no âmbito das empresas privadas. E novamente o assunto dos impostos vem à
tona. Quando as empresas privadas recolhem seus impostos de maneira
legal e adequada, a população é beneficiada. E, mais uma vez, entra o
consumidor na história. Que tipo de produto você prefere comprar? Você
conhece os fabricantes dos produtos que consome? É muito interessante
tirar tempo para conhecer a política e a cultura da empresa que fabrica
ou fornece aquilo que você consome. Você está disposto a pagar um pouco a
mais por um produto de boa procedência, que vem de uma empresa honesta e
ética, que registra seus trabalhadores, garantindo seus direitos
trabalhistas, que preserva o meio-ambiente, que oferece projetos sociais
como forma de garantir a sustentabilidade econômica do negócio? Ou você
prefere comprar aquele produto barato, sem nota, sem procedência,
provavelmente vindo dentro de um container, fabricado por pessoas de
outros países que ganham salários miseráveis, até menores do que um
pagamento de bolsa família, que trabalham em condições escravas sob a
maquiavélica forma de emprego formal? Você está disposto a pagar o FGTS
da sua empregada doméstica? Ou você acha que empregada não merece ter os
mesmos direitos de qualquer outro trabalhador?
Ser ético exige brio, exige moral, exige caráter. Ser ético é muito
mais do que ir às ruas exigir os seus direitos. Ser ético é acordar
todos os dias preparado para cumprir os seus deveres civis. Ser ético é
saber que só se pode exigir algo quando você também faz algo. Se
queremos que a ética permeie os negócios, precisamos deixar que ela
conduza a nossa vida.
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