O processo criativo
A criatividade dá origem ao processo criativo. Dito de outra forma, a
criatividade permite criar algo e este trabalho de criação é chamado de
processo criativo. O processo criativo envolve originalidade,
criatividade, inovação. Como todo trabalho, o processo criativo requer
esforço, tanto físico como mental. O processo produtivo é fundamentado
em três princípios mentais: Atenção, Fuga e Movimento:
- Atenção: serve para concentrar-se no problema ou na situação;
- Fuga: possibilita ir além dos pensamentos convencionais e fugir dos paradigmas impostos pelo ambiente;
- Movimento: possibilita exercer a atividade criativa em si, dando asas à imaginação.
A soma destas três ações mentais resulta no processo criativo,
traduzindo-se na atividade criativa. A “engrenagem mental” faz surgir a
criatividade através da detecção de uma situação ou problema (atenção).
Os pensamentos parecem fugir da realidade já conhecida, buscando novas
ideias com base no que já se conhece e tentando, ao mesmo tempo, na
direção inversa, romper ideias fixas e rígidas, buscando inovar sempre
(fuga). Após a detecção da situação-problema e da fuga das ideias
convencionais, o pensamento parece se mover em direção às novas ideias,
rompendo as barreiras do medo e da insegurança, projetando a ideia
criativa na realidade observada e avaliando os riscos e as inseguranças
(movimento).
1. Atenção
A criatividade só pode ter origem no momento em que algo nos é
solicitado, no momento em que algo requer nossa atenção e ação, seja ela
imediata ou tardia. As pessoas com maior abertura da mente acabam sendo
consideradas mais criativas, por estarem abertas a uma quantidade maior
de estímulos e por terem percepção mais aguçada com respeito ao meio
que as cerca. A atenção exige concentração e esforço para romper as
barreiras da realidade observada e requer trabalho mental aguçado em
direção à exploração de novas possibilidades, novas ideias. A atenção
possibilita perceber detalhes do que está ou não funcionando no ambiente
no qual o indivíduo está inserido, dando impulso ao desejo de explorar
novas ideias na busca de soluções criativas. Uma percepção aguçada pode
indicar aquilo que é difícil e complicado, aquilo que é muito rápido ou
muito devagar, aquilo que é pesado, aquilo que é rígido, aquilo que é
instável, aquilo que está separado, aquilo que é inadequado… Fatores
negativos chamam a atenção do indivíduo para uma situação-problema. A
partir daí o indivíduo busca alternativas para tornar as coisas mais
simples e fáceis, mais rápidas, mais leves, mais estáveis, mais
homogêneas, mais adequadas às suas necessidades.
Algumas perguntas podem auxiliar no processo de atenção: O que está
acontecendo? Poderia acontecer de modo mais adequado? Poderia ser feito
de outra maneira? Onde está acontecendo? Poderia acontecer em outro
lugar? Quais as etapas envolvidas no processo? Quem está envolvido? É
possível eliminar etapas para simplificar o processo? É possível
eliminar pessoas envolvidas para simplificar? É possível envolver mais
pessoas para tornar o processo mais rápido? O fluxo é contínuo? O
processo é “leve”? É possível facilitar as coisas?
2. Fuga
Depois de ter dado detida atenção a uma situação-problema, o indivíduo
passa pelo processo de fuga mental. É neste momento em que a
criatividade parece surgir e fluir no pensamento, como fruto de um
extenso processo mental de atenção e identificação de problemas. É neste
momento em que a mente parece fugir para um mundo desconhecido, na
busca de novas ideias.
A fuga envolve ir além dos modelos de pensamentos do indivíduo, envolve
ir além da realidade observada e dos conceitos aprendidos e aceitos
como fixos. Talvez a fuga seja o momento mais difícil do processo
criativo, pois é aqui onde se encontram a maioria dos bloqueios que
impedem e atrapalham a criatividade. O medo é um componente prejudicial
no desenvolvimento da criatividade e na exposição das ideias criativas.
Por isso, a fuga é o momento do rompimento de barreiras internas e
externas. É neste momento em que o indivíduo tem que ir além dos seus
próprios medos e eliminar as barreiras psicológicas que o atrapalham.
Neste momento também, o indivíduo tem que romper as barreiras sociais e
ambientais que parecem impedir que sua mente encontre soluções e
alternativas diferentes das já conhecidas. Hábitos, costumes, medos e
rotinas comportamentais e mentais devem ser eliminados neste momento,
ou, pelo menos, deixados de lado por um instante, a fim de favorecer o
fluxo do pensamento criativo. “Quem deseja desenvolver sua criatividade
não pode preocupar-se muito com a aprovação dos outros, pois o consenso
sempre rejeita a mudança.” (PREDEBON, 2006, p. 64)
Os bloqueios são como paredes que limitam o pensamento e impedem o
indivíduo de agir e pensar fluentemente em determinadas situações. No
processo criativo, os bloqueios devem ser eliminados a todo custo, a fim
de favorecer o fluxo mental e possibilitar o surgimento de ideias
criativas e adequadas à situação-problema encontrada no processo de
atenção. Os bloqueios à criatividade podem ser:
- Culturais: barreiras que o indivíduo impõe a si mesmo, gerados pela cultura e pelos conceitos aprendidos desde a infância, normalmente comuns à sociedade, cultura ou grupo a que o indivíduo pertence. Estes bloqueios impedem o indivíduo de aceitar o modo de pensar de indivíduos que pertencem a outros grupos ou culturas;
- Intelectuais e de Comunicação: falta de habilidade para formular e expressar ideias com clareza e falta de habilidade para reconhecer problemas e aprofundar-se neles. Às vezes ocorre por falta de conhecimento sobre o assunto, excesso de especialização, “visão míope” sobre o assunto e incapacidade de enxergar além do observado;
- Emocionais: desconforto e sensação de mal-estar ao lidar com determinadas situações ou ao enfrentar determinados problemas. Muitas vezes têm origem nos traumas vividos, seja na infância ou na idade adulta. Impedem o indivíduo de se comunicar adequadamente com outras pessoas quando envolve comunicar suas ideias e sentimentos e se caracteriza como medo de correr riscos, medo de parecer tolo ou ridículo na frente de outros, medo de arriscar, dificuldade para resolver problemas, pensamentos negativos e baixa autoestima;
- Percepção: bloqueios que dificultam a percepção e a visualização de situações-problemas. É caracterizado como uma dificuldade em encontrar soluções para os problemas e como uma dificuldade em enxergar os problemas sob diversos pontos de vista. Ocorre muitas vezes como consequência de ideias fixas e estereotipadas sobre diversas situações ou como resultado de uma sobrecarga de informações e de detalhes que restringem o pensamento;
- Ambientais e Organizacionais: envolvem condições de trabalho e cultura organizacional. Dentro de uma organização, este é o pior bloqueio à criatividade e à inovação. Isto acontece porque as barreiras organizacionais muitas vezes estão fortemente entrincheiradas na cultura organizacional e no estilo de gestão adotado, criando ambiente não propício para o surgimento de ideias criativas, principalmente quando a estrutura de gestão segue modelos hierárquicos mais fixos e rígidos e a criatividade é vista como perda de tempo e não como ação estratégica no âmbito empresarial;
3. Movimento
Prestar atenção e fugir dos padrões é o princípio do processo criativo,
mas nada acontecerá se não houver o movimento, a ação. O movimento leva
a exploração e combinação de novas ideias, gerando novas alternativas,
sem perder de vista o propósito do processo criativo. É neste momento em
que novas relações são estabelecidas entre ideias distintas e ocorre a
livre associação de ideias, explorando o limite da capacidade humana de
pensar. Após isso, a criatividade é aplicada e transformada em algo
real, compatível com a realidade percebida, em movimento à sua
aplicabilidade e operabilidade em relação à situação-problema inicial. É
aqui onde se pode ver o resultado do processo criativo, transformado em
ideia aplicável. É neste momento que a inovação passa a existir.
